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NETO: NÃO TÁ DE BRINCADEIRA NÃO!

Em entrevista à Happy, o craque Neto diz o que pensa sobre o futebol, a fama e a vida.

Por: Artur Salomão / Fotos: Fausto Saez

Vindo de uma família humilde de Santo Antônio de Posse, no interior paulista, José Ferreira Neto começou a carreira no Guarani, de Campinas (SP). Um dos seus diferenciais era a extrema habilidade em cobrar faltas. “Morei debaixo da arquibancada”, diz ele.

Defendeu os quatro maiores clubes do estado de São Paulo, mas declara amor ao Corinthians, do qual ainda é um dos maiores ídolos e foi o grande nome da conquista do Campeonato Brasileiro de 1990, o primeiro do alvinegro. Na seleção brasileira, foi vice-campeão olímpico (Seul 88), mas não foi convocado para a Copa de 1990.

Admite que demorou para aprender a lidar com o sucesso e reconhece que poderia ter sido um atleta melhor. Com 47 anos, o apresentador do programa “Os Donos da Bola”, da Band, é um dos principais comentaristas esportivos do Brasil.

Quando a entrevista foi concedida, a Seleção tinha acabado de conquistar a Copa das Confederações diante da Espanha; o Atlético Mineiro se concentrava para a final da Copa Libertadores da América, contra o Olímpia, do Paraguai (o clube mineiro conquistou o torneio pela primeira vez) e o Brasil vivia uma série de protestos que deixou a classe política atordoada. Também não havia ocorrido a demissão do jornalista Mauro Beting da Rádio Bandeirantes, o que levou Neto a colocar seu cargo à disposição na emissora. “Os diretores da rádio aceitaram o acordo proposto pelo ex-jogador Neto, apresentador da Band, que pediu demissão ao vivo durante o programa ‘Os Donos da Bola’. Em troca, ele pediu a recontratação de Beting”, noticiou na época o portal ‘Comunique-se’, que cobre os bastidores da imprensa. “Com isso, ele deixa o cargo de comentarista esportivo da Rádio Bandeirantes”.

“Teve muita gente preconceituosa, criticando o fato de a direção escolher ele, um jornalista diplomado e não eu, um ex-jogador. Não vou entrar muito nessa polêmica, porque acho babaquice”, criticou Neto em seu blog, no Uol. “Tomei essa atitude (pedir demissão), porque achei sim a mais correta. Devido aos meus compromissos profissionais, até com a própria Band, tenho convicção de que o Mauro pode produzir mais para o grupo (e já fazia isso)”.

Muito aconteceu, mas nada que impeça o nosso leitor de conhecer um pouco mais essa figura importante para o Corinthians, para os corintianos e para todos os que gostam de futebol e de um papo bom, franco e direto.

Happy: De onde surgiu esse cacoete “falar a verdade” que você usa sempre?

Neto: Não sei como surgiu. Eu falo isso espontaneamente, não só na televisão…

Happy: “Tá de brincadeira” também…

Neto: Isso eu copiei. Na verdade…olha aí…eu falo constantemente. Só que as pessoas têm que entender que a minha verdade não é a sua, certo? Eu levo a minha verdade pra tudo. Até porque hoje em dia esses babacas que aparecem em televisão, que aparecem em revista e ficaram famosos hoje se escondem atrás de assessor. As pessoas brigaram a vida toda pra serem famosas. Hoje, se você pedir para uma pessoa ser capa da sua revista, ela vai dizer: ‘Mas quanto você vai me pagar?’ Isso é uma hipocrisia. Eu não sou assim. Eu sou famoso desde os 15 anos. Se eu aparecer na sua revista, legal. Se eu não aparecer também, foda-se. Também não vai mudar nada pra vocês. E o “brincadeira” eu tirei do Gerson (campeão do Mundo em 1970 com a Seleção). Quando eu jogava, sempre o acompanhava como comentarista na própria TV Bandeirantes. E ele sempre falava: ‘É brincadeira, tá de brincadeira’. Eu tirei o ‘tá de brincadeira’ e falo só ‘é brincadeira’. Então, o cara erra um lance, ou um dirigente e eu às vezes tenho que ser duro: eu uso em termos de brincadeira ou para ser duro na crítica.

Happy: Como comentarista, você é polêmico…

Neto: Quem disse que o que eu falo é polêmica? O que é polêmica? As pessoas criam a polêmica. Eu não. Eu dou uma opinião forte. Criar polêmica é, por exemplo: Veja esse pessoal que trabalha no Big Brother, na Casa dos Artistas, no caralho a quatro. Esses caras vão ao restaurante e dão um beijo na boca de outro cara e criam polêmica. Eu dou a minha opinião. Cabe às pessoas interpretarem. Eu não crio polêmica porra nenhuma. Opinião é uma coisa, criar polêmica é outra. Mas eu quero que se foda.

Happy: Noticiar a contratação do Ronaldo pelo Corinthians, em 2009, foi seu melhor momento como comentarista esportivo?

Neto: Não ganhei porra nenhuma com isso. Falar a verdade, a verdade verdadeira. A Globo não acreditou muito que o Ronaldo ia para o Corinthians, porque o Andrés (Sanches, ex-presidente do clube) ligou pra mim e o Ronaldo Fenômeno ligou para um cara da Globo, de quem eu não vou falar o nome. Só que ele não acreditou. Teve gente que quase foi mandada embora lá da Globo. Eu passei pra Renata Fan (apresentadora do Jogo Aberto, na Band), só que a informação foi minha, o que foi muito legal. Também já errei pra caralho, hein? Mas há algum tempo eu parei de dar essas informações, porque eu tenho informação privilegiada e não acho isso certo às vezes, como não acho certo a Globo ter tudo. O cara cagou fora do penico, é a Globo. O cara matou, é a Globo. Tudo são eles. Então, eu parei com esse tipo de informação.

Happy: Analisando sua carreira como jogador, o que você teria feito de forma diferente? A questão física foi a sua maior dificuldade?

Neto: Poderia ter me cuidado mais, escutado mais as pessoas, ter sido mais humilde e profissional e ter trabalhado mais. Eu poderia ter disputado três Copas do Mundo. Mas quero que se foda tudo isso, porque eu já fiz, já errei, tenho consciência e hoje procuro fazer tudo de uma maneira mais correta. Eu sofri demais sem ter necessidade. Não estou falando em termos de dinheiro, não. Mas a minha carreira poderia ter sido mais estável. Um dia eu era o maior; em outro, eu era uma bosta. É duro!

Happy: Como se sentiu ao não ser convocado pra Copa de 1990? Guarda mágoa do técnico Sebastião Lazaroni?

Neto: Na época, não sei. Mas eu fiquei muito triste, eu acho. No começo, não consegui vê-lo na televisão. Uma vez, eu estava em Maceió e fui pedir um autógrafo pra Regina Duarte. Eu a adorava por causa da Porcina (personagem vivido pela atriz na novela Roque Santeiro, da TV Globo, nos anos 80). Ela me tratou muito mal. Toda vez que eu a vejo na televisão, mudo de canal. E acho que acontece isso com as pessoas que não gostam de mim também. Em relação ao Lazaroni, eu olhava pra ele e tinha nojo, porque ele não ter me levado foi uma aberração e ele ter levado o Bismark, o Tita e o Romário, que estava machucado. Mas aí o tempo foi passando e a gente vai entendendo. O futebol é muito sujo, né? Eu sou muito mais falado por não ter ido do que os jogadores que foram. Foi bom pra mim? Não. Eu poderia ter disputado uma Copa do Mundo que seria importante pra minha carreira. Talvez se eu tivesse ido para uma Copa do Mundo, eu poderia ter sido mais profissional. Mas não tenho raiva dele. Falar a verdade, de ninguém. Tem gente que me odeia e eu tenho pena. Eu tenho pena das pessoas que têm esse tipo de atitude; porque, porra, o mundo já é tão difícil, cara! A vida é muito boa pra se viver, independentemente dos acertos e erros que a gente comete. Só que temos que ir aprendendo com eles.

Happy: Nos seus comentários, são frequentes as observações de como um jogador bate na bola e cobra o escanteio. O brasileiro está desaprendendo ou é falta de treino?

Neto: É falta de talento mesmo, falar a verdade, pra maioria. Eu acho que falta talento para eles baterem os escanteios. O Forlan fez gol olímpico agora. Há quanto tempo a gente não via gol olímpico no futebol brasileiro? E quem fez foi o Forlan, que é uruguaio e tem 35 anos. Falta muito talento. Eles treinam pouco e os treinado – res são culpados. São poucos os jogadores que batem bem na bola hoje.

Happy:: Mudando um pouco de assunto, o que achou da declaração do Ronaldo de que uma Copa não se faz com hospitais?

Neto: As pessoas usaram muito isso nas manifestações, porque o Ronaldo é conhecido. Tem que interpretar as coisas de uma maneira mais inteligente. Ele não quis dizer que não tenha que ter hospitais, até porque o Ronaldo ajuda muita gente. É o maior artilheiro de todas as Copas, representa o país de uma maneira inteligente. Só que editaram isso e botaram no cú do moleque, o que é uma tremenda de uma sacanagem. E ele falou isso há mais de três meses. Por que só falar agora, nas manifestações? Todos nós sabemos que tem que ter hospitais, metrô, ônibus, transporte. A gente tem que fazer isso no voto, nas manifestações e há muito tempo isso não acontecia. Mas não é certo querer transferir pro Ronaldo algo de que ele não tem culpa.

Happy: Que países devem ser as grandes forças da Copa?

Neto: Alemanha. Pra mim, quem ganha a Copa é a Alemanha.

Happy: O Neto é uma pessoa realizada ou ainda falta alguma coisa pra vivenciar no futebol ou fora dele?

Neto: Diante do jeito que eu fui pobre, das coisas que eu tive vontade de comer, de fazer, de ver, de estar perto, eu já consegui tudo. Isso falando em termos materiais. Agora em termos de amor e de reconhecimento, acho que a coisa mais bonita que eu tenho é que sou a mesma pessoa de Santo Antônio de Posse. Fiquei mais velho, mais chato, estou muito famoso e às vezes isso me irrita, mas me sinto realizado por ser famoso. Eu não quis jogar bola pra ser famoso. Eu quis jogar bola. Mas, o mais legal é que eu posso ajudar minha família, dar uma condição legal pra minha mãe e pros meus irmãos. Eu ajudo a minha avó que tem 90 anos, a APAE, o Lar dos Velhinhos. Realização é como fé. O que é fé? É ir à igreja, é ler a Bíblia? Nem fodendo. É gratidão, é caridade. É o que eu faço. Em termos materiais, sou realizado. Para me realizar profissionalmente, muitas coisas eu procuro fazer; mas não peço mais nada pra Deus, porque Ele já me deu mais do que eu precisava. Tá bom pra caralho.

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